{"id":146,"date":"2021-12-07T09:45:33","date_gmt":"2021-12-07T12:45:33","guid":{"rendered":"http:\/\/colegiodeaghape.com.br\/blog\/?p=146"},"modified":"2021-12-07T09:45:33","modified_gmt":"2021-12-07T12:45:33","slug":"professores-cheios-de-vida","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/colegiodeaghape.com.br\/blog\/2021\/12\/07\/professores-cheios-de-vida\/","title":{"rendered":"PROFESSORES CHEIOS DE VIDA"},"content":{"rendered":"<p>Tenho uma admira\u00e7\u00e3o imensa por professores da Educa\u00e7\u00e3o Infantil e de s\u00e9ries iniciais. Elas \u2013 quase sempre mulheres \u2013 lidam com o que h\u00e1 de mais fr\u00e1gil e dif\u00edcil na \u00e1rea. Na Educa\u00e7\u00e3o Infantil \u00e9 comum encontrarmos salas com 25, 30 crian\u00e7as, e cada uma delas \u00e9 uma \u201cbomba ambulante\u201d. \u00c0s vezes parece que \u00e9 preciso chamar o GATE (Grupo de A\u00e7\u00f5es T\u00e1ticas Especiais) ou o Corpo de Bombeiros, porque a professora vira para cuidar de um aluno e outro cai aqui; ela corre atr\u00e1s desse e outro cutuca o olho do coleguinha. \u00c9 sempre impressionante lembrar como essas crian\u00e7as s\u00e3o fr\u00e1geis. Gosto demais de recordar uma situa\u00e7\u00e3o que conto em palestras e em outros livros. Quem j\u00e1 n\u00e3o viu cenas como esta no Ensino Fundamental: a professora est\u00e1 saindo para o intervalo e v\u00ea que ficou uma menininha na sala. Ela est\u00e1 ali, quietinha na carteira, n\u00e3o saiu com os outros alunos.<\/p>\n<p>\u2013 O que foi? \u2013 pergunta a professora.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o foi nada.<\/p>\n<p>\u2013 Fala para mim o que aconteceu \u2013 ela torna, carinhosa.<\/p>\n<p>E a garotinha continua insistindo que n\u00e3o foi nada, at\u00e9 que a professora p\u00f5e a m\u00e3o no ombro da crian\u00e7a. Detalhe: n\u00f3s somos, com frequ\u00eancia, o \u00fanico adulto que toca algumas crian\u00e7as durante o dia. Muitos pequenos n\u00e3o est\u00e3o nem acostumados a serem tocados, e disso bem sabem professores de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica porque s\u00e3o os que mais perto chegam dos nossos alunos.<\/p>\n<p>Quando a professora p\u00f5e a m\u00e3o no ombro da aluna, a garotinha se abre: \u201cMinha m\u00e3e disse que meu pai foi viajar e vai demorar muito para voltar\u201d. A professora entende e fala: \u201cVem comigo, vou mostrar uma coisa\u201d. Cria-se uma depend\u00eancia, em que a professora vai, a menina vai atr\u00e1s, grudada na saia ou no guarda-p\u00f3, dizendo \u201ctia, tia\u201d.<\/p>\n<p>Por que ela vai junto? Porque encontrou algum lugar. Como lembraria o grande Guimar\u00e3es Rosa, \u201cA vida \u00e9 um grande sert\u00e3o, mas tem veredas\u201d, e as veredas est\u00e3o no outro.<\/p>\n<p>Quantas vezes voc\u00ea presenciou, \u00e0s onze da noite, no estacionamento da escola, um professor conversando com um aluno de quinze, dezesseis anos? Em vez de ir para casa, o professor ficou ouvindo o aluno contar que est\u00e1 desesperado, que a namorada engravidou e ele n\u00e3o sabe o que fazer. Ou ent\u00e3o voc\u00ea est\u00e1 no intervalo e os alunos est\u00e3o atr\u00e1s aos montes, gritando \u201cprofessora, professora\u201d.<\/p>\n<p>Depois de um dia assim, onze da noite, seu filho vem pedir para voc\u00ea tomar a li\u00e7\u00e3o dele e voc\u00ea quase agarra o inconveniente pelo pesco\u00e7o e diz: \u201cEstou por aqui (dedo em riste) de crian\u00e7a, n\u00e3o aguento mais\u201d. Onze horas da noite, voc\u00ea quer ir dormir \u2013 n\u00e3o que saber de filho que vem pedir ajuda. \u00c9 por isso que, de maneira geral, filhos de educadores n\u00e3o s\u00e3o necessariamente geniais na escola;\u00a0 a gente n\u00e3o tem muita paci\u00eancia pedag\u00f3gica com eles. \u00c9 crian\u00e7a demais para se preocupar o dia inteiro.<\/p>\n<p>\u00c9 vida demais \u00e0 nossa volta, e \u00e9 o tempo todo. \u00c9 vida transbordando vida o dia inteiro. Aten\u00e7\u00e3o \u00e0 palavra \u201ctransbordar\u201d, que quer dizer \u201cir al\u00e9m da borda\u201d, ser incontido e ilimitado. N\u00f3s somos incontidos, vivemos em voz alta. Transbordar n\u00e3o significa s\u00f3 alegria, elogio, emo\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m tristeza, bronca e chatice. Mas, retomando uma deliciosa obviedade: nossa profiss\u00e3o lida com gente. Voc\u00ea quer coisa mais complicada do que gente? No entanto, consegue largar? Consegue? Jamais!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho uma admira\u00e7\u00e3o imensa por professores da Educa\u00e7\u00e3o Infantil e de s\u00e9ries iniciais. 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